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Artigo – As cuecas multiúso

Ainda que o Coronavírus continue sendo a estrela negativa do cenário nacional, para a tristeza e dor de muitos brasileiros, é visível que existem outros atores competindo para desviar a atenção da plateia, não importa se as suas atitudes estejam a envergonhar o Brasil, tanto na medida em que choca a sociedade brasileira, quanto na proporção em que deslustra a nossa imagem perante o resto do Mundo.

No ano de 2005, um Assessor Parlamentar do Deputado Federal cearense José Guimarães (PT), irmão do então Presidente do PT José Genuíno, foi flagrado e detido pela  Polícia Federal, no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, conduzindo R$ 209 mil reais numa maleta de mão e US$ 100 mil dólares em espécie, em sua cueca. As investigações foram na direção de que o valor era propina por envolvimento em licitações fraudulentas à época. E, pelo jeito, não tem vacina nem quaisquer antídotos contra esse vergonhoso mal. Que pena, e que sina triste de um país tão sofrido e trabalhador como o nosso!

Apesar da multifunção descoberta para a cueca, foram necessários 15 anos depois para que a Polícia Federal viesse a fazer uma nova apreensão da espécie, agora com uma melhor performance, por ter sido um Senador da República! O mais grave é que são duas práticas criminosas sempre ligadas a integrantes do Congresso Nacional, o que deprime a todos nós.

Apesar de que é ridículo o valor nominal de R$33 mil reais encontrado com o Senador Chico Rodrigues (DEM-RR), se comparado aos US$100 mil dólares de 2005, o fato que motivou o desdobramento, contudo, está numa investigação mais ampla em que ele está envolvido por possíveis desvios de uma verba de 20 milhões de reais destinada pelo Governo Federal para combater o COVID-19 no Estado de Roraima.

O que surpreende em tudo isso, é que o “Senador da Cueca”, como passou a ser tratado pela imprensa, ocupava a função de Vice-Líder do Governo no Senado Federal, cargo ao qual renunciou imediatamente! Obviamente, que ao Governo não pode ser atribuída culpa pelo desvio de caráter de seus apoiadores, parlamentares ou não, mas o fato reitera a convicção de que não está certo o Presidente Bolsonaro ao declarar, recentemente, que acabou com a Operação Lava Jato porque, segundo ele, “não tem mais corrupção no governo”! Ora, Presidente, não se imaginava que a corrupção seria extinta do país com a Lava Jato, mas na mesma intensidade em que ela reduziu em curto espaço de tempo, já começou a ressurgir e, por fatídico, envolvendo um importante aliado político do governo! Ou seja, a reinfecção da roubalheira parece não ter fim, uma vez que os porões do crime continuam cheios de roedores do dinheiro público...

Sempre que se comentava sobre a Lava-Jato, era comum se ouvir impressões positivas sobre a competência e desempenho do Juiz Sérgio Moro, lá em Curitiba. Cresceu tanto esse conceito, que já se antevia a perspectiva de ser um bom nome para uma eventual vaga no STF e, quiçá, possível candidato a Presidente da República. Lamentavelmente, começou a derrocada da avaliação de S. Excelência, ao se empolgar com um convite político para o Ministério da Justiça, onde, claramente, iniciou- se o seu processo de fritura e, em paralelo, o consequente desmonte institucional da Lava-Jato.

Estrategicamente, era visível que não se pretendia ter um bom Ministro da Justiça, mas, um ex-Juiz da Operação anticorrupção! Com todo o respeito que tenho a S. Excelência, parece-me que não sai mais como candidato nem a juiz de futebol! O que seria um demérito, diga-se de passagem, considerando o perfil do Juiz que o Brasil aprendeu a admirar por um bom tempo.

Oxalá fosse verdade a afirmativa de que a corrupção acabou! Ou seria mais correto afirmar que os adeptos do modelo das CUECAS MULTIÚSO voltaram a atacar...

Autor: Adm. Agenor Santos, Pós-Graduação Lato Sensu em Controle, Monitoramento e Avaliação no Setor Público – de Salvador - BA.