Não adianta fazer yoga e não se importar com o mundo que está queimando

Não adianta fazer yoga e não se importar com o mundo que está queimando. Não há como alcançar verdadeira saúde interior em um mundo em colapso.  De que adianta correr para se manter em forma se o ar está poluído? Como encontrar paz mental quando enfrentamos ondas de calor extremo em cidades desprovidas de árvores, infraestrutura adequada ou quando muitos sequer têm condições de comprar e manter um ar-condicionado? Como manter a estabilidade emocional diante da devastação frequente das enchentes, que destroem vidas, lares e memórias ao redor do mundo? Nossa saúde individual está também na  saúde do planeta. Confira análises: 

As palavras do ano de 2024 revelam uma tendência preocupante sobre nossa saúde mental coletiva. No Brasil, “ansiedade” foi escolhida como a palavra que melhor representa o zeitgeist nacional, enquanto globalmente, o termo “brain rot” (deterioração cerebral) ganhou destaque. Essas escolhas são um reflexo alarmante do estado de nossa saúde mental e bem-estar emocional, indicando um mal-estar generalizado que transcende fronteiras e culturas.

É crucial reconhecer que nossa saúde mental não existe em um vácuo. Ela é moldada por  nosso corpo, nosso território e o planeta como um todo. O adoecimento mental que experimentamos é, em grande parte, um sintoma de um desequilíbrio maior – uma desconexão fundamental entre nós e nossa natureza.

Cuidar da mente e do corpo requer disciplina, planejamento e, muitas vezes, sacrifícios momentâneos para alcançar benefícios a longo prazo. Seguimos  dietas, estabelecemos rotinas de exercícios e praticamos mindfulness. Mas há um paradoxo nessa abordagem: separamos o bem-estar pessoal do bem-estar do nosso ambiente externo. Esta é uma divisão artificial e perigosa.

Não há como alcançar verdadeira saúde interior em um mundo em colapso.  De que adianta correr para se manter em forma se o ar está poluído? Como encontrar paz mental quando enfrentamos ondas de calor extremo em cidades desprovidas de árvores, infraestrutura adequada ou quando muitos sequer têm condições de comprar e manter um ar-condicionado? Como manter a estabilidade emocional diante da devastação frequente das enchentes, que destroem vidas, lares e memórias ao redor do mundo? Nossa saúde individual está também na  saúde do planeta.

O monge e ativista Thich Nhat Hanh cunhou o termo interbeing para descrever a profunda interconexão entre todas as coisas. Não existimos como entidades separadas; estamos intrinsecamente ligados a tudo o que nos rodeia – do ar que respiramos às árvores que nos fornecem sombra, ao solo que sustenta nosso alimento. Essa visão vai além da ideia de simplesmente viver em harmonia com o ambiente. Ela nos lembra que somos o ambiente.

Se aceitarmos que ser é inter-ser, cuidar do planeta deixa de ser apenas uma responsabilidade ética e passa a ser um ato de autocuidado. Não podemos prosperar enquanto os ecossistemas ao nosso redor estão em colapso, assim como uma folha não pode sobreviver se a árvore à qual pertence está doente.

É hora de ampliar nossa compreensão de autocuidado. Assim como planejamos nossa dieta e rotina de exercícios, devemos planejar e agir para restaurar nossos ecossistemas. Isso pode parecer uma tarefa assustadora, mas é tão essencial quanto qualquer outro aspecto de nossa saúde. Por que não?

Somos parte de sistemas maiores – de nossas comunidades, cidades e da natureza que as envolve. Pensar e agir além de nós mesmos, considerando o bem-estar coletivo, faz sentido também para nossa própria saúde. Cada ação – consumir menos, apoiar negócios locais, andar mais a pé que de carro, cuidar de um jardim, compostar – é uma declaração. São micro-revoluções que sinalizam ao setor público e privado a necessidade de mudanças estruturais. Claro,  precisamos de coro, muitas pessoas que sustentem hábitos e preferências para que o ponteiro mude. Em outras palavras, que pesquisas de mercado e de opinião pública reforcem novas narrativas para que esses insumos entrem na centralidade das decisões.

A cura para nossa ansiedade coletiva e “brain rot” não será encontrada apenas em terapias individuais ou medicamentos. Ela reside em reconectar-nos com o que somos: natureza. . Ao cuidar de nossas casas, nossas mentes, nossos corpos e nosso planeta como um todo interconectado, podemos começar a reverter o ciclo de adoecimento e caminhar em direção a um futuro mais saudável e harmonioso.

E nesse momento de fim de ano, de reflexões e sossego, sem carregar a pressão por descansar para produzir mais no próximo ano , vale a pena refletir sobre como cuidamos para além da nossa epiderme, mas também como conseguimos continuar vivendo em tempos literalmente quentes para construir resiliência interna e coletiva. Já que fim de ano é momento de esperanças e sonhar, reforçamos que a insignificância dos nossos pensamentos individuais diminui à medida que a consciência coletiva ganha espaço, assim quem sabe,  essa reflexão chegue a muitos, e tenhamos mais poder para escolher nossos rumos coletivos.

Ao abraçar nossa conexão com o planeta, não estamos apenas protegendo o meio ambiente – estamos curando a nós mesmos. É hora de reconhecer que nossa saúde pessoal e a saúde do planeta são uma só, e agir de acordo com essa verdade fundamental.

Texto publicado originalmente no site o eco jornalismo ambiental Carolina Guimarães Urbanista, gestora de projetos e Natalie Unterstell é mestre em Políticas Públicas pela Universidade de Harvard, ambientalista e especialista em políticas climáticas.
 

O eco jornalismo ambiental