É frequente que algum livro – por mais importante que seja – não conquiste razoável visibilidade. Principalmente, em decorrência de atribulações relativas ao momento – ou/e à forma – de seu lançamento. Nestes casos, nada mais importante do que chamar a atenção para a injustiça, em veículo que não poderia ser mais apropriado do que este Jornal da USP. Desta vez, para elogiar um trabalho cujo título bem infeliz, mesmo que o subtítulo seja dos mais apropriados: Uma Enciclopédia nos Trópicos – Memórias de um socioambientalista (Zahar, março de 2024), com prefácio de Ailton Krenak.
O autor – Beto Ricardo (75) – que, devido a seu avançado mal de Parkinson, nem pôde participar de qualquer evento sobre seu livro, também não poderia ter tido seu depoimento publicado sem a competente coautoria do notável jornalista Ricardo Arnt. Em posfácio, outro também notável jornalista – Leão Serva – assim sintetizou a importância do livro:
“As memórias de Beto Ricardo mostram o mapa do caminho de um timoneiro experiente, que várias vezes já se viu diante do diabo, no meio do redemoinho, e saiu dele vencedor”.
Em densos dezoito capítulos, os autores forneceram fascinantes relatos sobre quase 60 anos de ativismo pró-indígena, alavancados pela transição de um clássico colegial no Colégio Santa Cruz (SP) à graduação em Ciências Sociais na ainda inebriante Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da USP, encerrada na “Batalha da Rua Maria Antônia”, em 2 de outubro de 1968.
Até aqui, foram mais de três décadas no âmbito do ISA (Instituto Socioambiental), depois de importante e longa incubação no célebre Cedi (Centro Ecumênico de Documentação e Informação).
A rigor, praticamente tudo partiu do Levantamento da situação atual dos povos indígenas no Brasil, iniciado em 1978. Sua expansão, sempre agregando novas dimensões, ensejou, já em 1980, uma mudança de nome para Aconteceu: Povos Indígenas no Brasil. Apelidado de “PIB”, virou uma admirável enciclopédia, que já chegou à 13ª edição.
Note-se que houve apenas a troca de uma letra: “povos indígenas no Brasil” em vez de “povos indígenas do Brasil”. Rompendo com um ideal tradicional de identidade brasileira que considerava os “índios” como um “componente” da brasilidade, para prestar atenção e ouvir as perspectivas dos indígenas sobre eles mesmos.
Em simultâneo, também foi uma radical inovação ortográfica batizar o novo instituto com o termo “socioambiental”, até então aceito – no máximo – como um vocábulo separado por hífen: “sócio-ambiental”. Um processo determinado pela “emergência”, em todos os sentidos que este termo possa ter.
O de urgência, ou situação crítica, vem sendo cada vez mais comprovado pelos avanços científicos alcançados no entendimento de fenômenos como o aquecimento global, infelizmente rebaixado pela expressão “mudanças climáticas”.
Mas, também, o de aparecimento, ou nascimento, dado pelo caráter incipiente da conscientização sobre os riscos e incertezas que as sociedades enfrentarão por conta de tantas degradações ambientais.
De qualquer forma, foi a união do que era entendido como social e ambiental que produziu a “emergência” do que mais veio a marcar a vida do ativista Beto Ricardo: o socioambiental. Não haverá livro que melhor documente tanta confluência
José Eli da Veiga, professor sênior do Instituto de Estudos Avançados da USP e colunista da Rádio USP
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