ARTIGO - A CAATINGA E SEUS MUITOS ENCANTOS

25 de Jan / 2017 às 23h00 | Espaço do Leitor

Ao se deparar pela primeira vez com a caatinga, espanta-se Euclides da Cunha com aquela “flora inteiramente estranha e impressionadora capaz de assombrar ao mais experimentado botânico”. Chega a ser contundente: “é uma flora agressiva”. Depois emenda: “agressiva para os que a desconhecem — ela é providencial para o sertanejo”.

A caatinga é mais que uma vegetação, é um templo. E o sertanejo tem com ela uma relação mais que amorosa: espiritual. Relação de devoção mesmo. Não há sertanejo que não venere a caatinga como se fosse esta uma coisa sagrada. Ela é quase indizível, imperscrutável. Somente os que com ela convivem são capazes de decifrá-la em plenitude. Nela coexistem valores que só o sertanejo é capaz de captar. A caatinga é uma questão de identidade. De espírito. De consciência. Não basta nela conviver. É preciso vivê-la, senti-la, penetrar sua essência. Beber sua seiva sagrada.

A caatinga traz a marca da resistência; não se curva às intempéries; e o sertanejo é sua imagem e semelhança; fez-se igual a ela: valente, forte e ousado; nada o detêm; nem mesmo a indiferença governamental de que é vítima secular; tampouco a seca é capaz de abatê-lo; com ela já aprendeu a conviver; sabe tratar-se de velha companheira daquelas rústicas paragens.

A caatinga é uma aliada inseparável do sertanejo; nela está sua vida e sua economia; nela residem seus encantos e desencantos; conhece-a ele como a palma da mão; sabe dos seus mistérios e segredos; não a ama: adora-a; jamais a deixará; dela extrai o sertanejo a melhor das culinárias – manjares quase que sagrados, como a refrescante umbuzada, a suculenta buchada de bode (regada à cana da boa), o saborosíssimo cuscuz de milho (servido com café quente), sem falar dos apetitosos beijus de tapioca (saboreados com manteiga da terra).

Com a caatinga vive o sertanejo sua cultura e sua fé. Nela e com ela estão os deuses e demônios que povoam o imaginário popular. Nela moram os lobisomens, as mulas-sem-cabeça, a caipora. Por entre cipós e carrascais transitam os santos do povo: São Cosme e Damião, São Lázaro, Santo Antônio, São João, Maria Virgem. Do pico das colinas levanta-se a voz dos profetas do novo mundo: Conselheiro, Romão Batista, Frei Caneca, Beato Lourenço, Eduvirgens, Irmã Dulce. Nas noites enluaradas estão o aboio do vaqueiro, o verso de cordel, o repente da viola, a fogueira de São João, o samba de roda, a banda de pífano, o bumba meu boi.

A caatinga é sui generis; seus galhos finos e retorcidos contrastam ora com os robustos e frondosos umbuzeiros, ora com as enormes e gorduchas barrigudas; os mandacarus, sempre imponentes, erguem-se em direção aos céus, como que a suplicar a ajuda do divino; do alecrim-do-tabuleiro rescende a melhor fragrância, enquanto a canafístula acena com suas flores amarelas; exuberante, o araticunzeiro fornece seus doces e saborosos frutos da polpa cor de gema.

Vem a seca e tudo aquilo emudece. Morre, quase. A exuberância de antes transforma-se num mundão de mato acinzentado. Ressequida e desfolhada, a caatinga é só calmaria. Uma ou outra ave cruzando o céu, em busca de refúgios mais amenos. Nos barreiros, nenhuma gota d’água. Animais com sede vagueiam perdidos pelos pastos devastados. No céu, nenhuma nuvem. O quadro é de completa desolação.

De repente, como numa sinfonia de Beethoven, ronca o trovão, clareia o relâmpago e desaba a trovoada. E a caatinga ressuscita. Em poucos dias, ei-la a recobrar o verde de outras quadras. A revestir-se da sua farta e alegre vegetação. Por toda parte, ressurgem verdes e floridos os paus-de-rato, as cebolas-bravas, os umbuzeiros, as malvas, os alecrins, os juazeiros, as juremas, os pau-de-rato, as unhas-de-gato, os velames. Ao mesmo tempo, vibram felizes e festivos os sapos-cururus, os preás, os calangos, os gatos do mato, os beija-flores, as rolinhas, as juritis, os sofrês, os periquitos. E o sertanejo de novo se enche de contentamento, agradecido por tão preciosa dádiva.

A caatinga com seus muitos encantos é a síntese do Brasil guerreiro. Ela é o retrato da força e do heroísmo dos que, transitando na contramão da história, ousaram empunhar a bandeira surrada da liberdade.

José Gonçalves do Nascimento

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