Recentemente, o retorno do futebolista Neymar Jr. ao Santos Futebol Clube foi muito comemorado publicamente por torcedores e outros entusiastas do esporte.
Porém, uma das manifestações públicas chamou muito a atenção da mídia: o vídeo feito com o uso de inteligência artificial (IA) para recriar a voz de Pelé e que foi usado durantes as negociações para convencer Neymar a voltar para o clube santista.
Nesse vídeo, pode-se ouvir a voz de Pelé dizendo a Neymar de forma categórica: “Eu permito que você use meu trono e minha coroa”.
O uso da imagem ou voz de celebridades falecidas, popularmente chamadas de delebs (do inglês, a abreviação de dead celebrities), está longe de ser novidade e é um mercado que atualmente movimenta bilhões nos Estados Unidos. Até a popularização da IA e da manipulação de imagens de forma semelhante ao deepfake, as delebs apareciam na mídia principalmente de duas formas: em concertos nos quais celebridades mortas voltavam a ser ouvidas ou vistas em palcos, com a ajuda de gravações de áudio-vídeo, e geração de hologramas e imagens para vender produtos que supostamente seriam endossados por elas. Um exemplo da primeira forma seria o concerto da cantora Whitney Houston produzido em 2020, oito anos após sua morte.
Outra deleb que segue vendendo produtos é Marilyn Monroe, falecida em 1962. Monroe possui uma conta no Instagram com dois milhões de seguidores e faz anúncios regulares de produtos que vão desde pincéis de maquiagem até garrafas de champanhe que levam seu nome. Se a foto de uma celebridade falecida usada em um comercial para endossar um determinado bem de consumo pode deixar algumas pessoas com dúvidas acerca do real envolvimento daquele famoso com o produto (“será que ele ou ela realmente faria comercial daquele produto?”), ao menos é bastante explícito que, até recentemente, se tratava do “reúso” de uma imagem já existente, feita em vida, para compor um comercial. Carrie Fisher, por exemplo, apareceu no filme A Ascensão de Skywalker graças ao uso de cenas gravadas antes de sua morte e que não tinham sido utilizadas nos filmes anteriores da franquia Star Wars.
Esse panorama mudou recentemente com o uso de IA para recriar a imagem ou a voz de celebridades para fins comerciais. Nesse sentido, uma celebridade falecida pode alcançar a imortalidade não somente através da preservação de sua obra em vida, mas também pela sua participação em novas obras. No Brasil, a IA foi usada pela primeira vez na publicidade em 2023, em um comercial de automóvel no qual Elis Regina foi recriada cantando Como os Nossos Pais, com sua filha Maria Rita. Após polêmica, o Conselho de Ética do Conar (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) considerou “(…) improcedente o questionamento de desrespeito à figura da artista, uma vez que o uso da sua imagem foi feito mediante consentimento dos herdeiros e observando que Elis aparece fazendo algo que fazia em vida”.
Na falta de um documento que deixe instruções claras sobre o uso póstumo de sua imagem (como fizeram Fred Astaire, Robin Williams e Paul Newman), em termos legais, herdeiros ou outros representantes de delebs podem decidir sobre esse uso. No entanto, no que diz respeito à discussão ética, casos envolvendo famosos são tão problemáticos quanto os casos envolvendo mortos anônimos, que muitas vezes são objeto de pesquisa científica ou até mesmo usados para ensino (no caso, por exemplo, dos cadáveres humanos usados para ensinar anatomia nos cursos de ciências da saúde) ou extensão (por exemplo, múmias humanas expostas em museus).
Independentemente da antiguidade do morto ou da existência de descendentes conhecidos, existe uma gama de possibilidades em termos dos deveres que os vivos podem ter em relação aos mortos (sendo esses famosos ou não). Isto inclui deveres para com a pessoa que já faleceu, deveres para com os vivos (deveres para com os descendentes conhecidos, bem como deveres associados a sentimentos e interesses públicos não pessoais), e, por fim, nenhum dever. Uma verdadeira abordagem sem deveres assume que a pessoa morta não tem conhecimento do presente (e, portanto, não pode sofrer qualquer dano) e que os mortos não têm interesses e direitos.
Nesse sentido, celebridades mortas não podem opinar acerca das demandas e decisões de seus representantes e podem ter suas imagens ou vozes usadas para endossar ideais ou produtos incompatíveis com o esperado caso estivessem vivas, resultando em problemas de reputação da celebridade morta. Parece paradoxal dizer que nossa sociedade, ao mesmo tempo em que cultua as celebridades mortas, não parece ter nenhum dever para com elas.
Na ocasião do uso de gravações da atriz Carrie Fisher para que ela pudesse aparecer em um filme cuja produção se iniciou após sua morte, o ator Anthony Daniels, que interpreta o androide C-3PO, disse: “As pessoas morrem na vida real. Nos filmes, elas nunca morrem se você assim escolher”. Nesse sentido, a pergunta que devemos seguir tentando responder é: quem pode escolher pelos mortos?
Por Mercedes Okumura, professora do Instituto de Biociências da USP
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