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ESPAÇO DO LEITOR: QUASE VIREI “DE-CUJUS”!

08 de Aug / 2011 às 23h20 | Espaço do Leitor

Superstição, agouro ou presságio, fato é que no dia 5 de agosto, às 5 horas da manhã, por pouco eu não passei a morar no canzuá-de-quimbe (casa dos mortos)!

Retornando do “cooper” matinal em direção à minha residência, banhado pelo conjunto de gotas de orvalho que insistia em cair e que ainda namoravam com o lusco-fusco alvorecente, bateu-me, de opino em meu cérebro, a abelhudice, despertando-me para o fato de que a Ponte Presidente Dutra, com seus “brincos” seria reinaugurada naquele mesmo dia, com o comparecimento da Presidenta da República, Dilma Roussef.

Lembrei-me, então, de “olhar à direita!”, referindo-me à instrução de Ordem Unida, bem como à Parada Militar. Atendi ao chamamento e marchei com “a barriga pra dentro e o peito pra fora”, um verdadeiro infante em direção à grande “obra prima”. Tive mesmo a audácia de subir a uma “gargantazinha” que serve de descida para bicicletas e pedestres.

Debrucei-me, placidamente, no dorso do “esqueleto franzino”, íngreme e sem degraus para atender a pessoas portadoras de deficiência física. Olhava para o lado de Petrolina e revirava os olhos em direção a Juazeiro, de modo incessante, não acreditando no que via, pois minha cidade não merece tamanho contrassenso, discriminação.

Pensei que me tornara um visionário, que tudo era tão somente ilusão de ótica, mas era verdade, pois minha visão está boa, tendo recentemente feito exame. Concentrei-me e a placidez permaneceu, mostrando-me a realidade. Sem precisar de teodolito, instrumento óptico, lupa ou luneta, eu comparei a “Ponte Odisseia” a uma lagartixa, cujo rabo feioso encontra-se no lado baiano. Ponderei comigo mesmo que a nossa Presidenta jamais iria enfrentar a inauguração de um réptil terrestre, feio, escamoso e de quatro patas!

Ao despertar de tamanha meditação, pensando, sobretudo, nos acidentes de veículos que advirão, principalmente nos flancos, meus olhos fizeram uma oitava à esquerda e vi, que da cabeça do “esqueleto”, despencava em minha direção uma bicicleta aparentemente sem freios.

Supliquei, de forma on-line aos deuses: “Malembe! Malembe! Malembe! (Misericórdia). Minha Mãe Oxum, rainha das águas doces, tomou-me às costas, pois era o Orixá mais próximo, habitante dos rios. Oxum atendeu-me de imediato. Supliquei a Oxum, porque São Francisco anda zangado com o poder público, pois o rio que leva o seu nome tem sido muito desprezado e machucado pelo governo. Fato é que, graças às forças dos Voduns, eu não me tornei um “de-cujus”, um “presunto da maldição”.

Com certeza, o ciclista descontrolado achava-se possuído pelo Sujo ao desembestar-se da “rampinha tísica”, tirando faísca no cimento com os pés que pareciam um freio a disco para estancar a “bicha rodante”.

No momento fatídico, lembrei-me, também, da novela do Bem Amado, brilhantemente interpretada pelo Coronel Odorico Paraguassu, este o prefeito de Sucupira, que exigia um defunto para inaugurar o cemitério da cidade. No caso específico, seria a reinauguração da Ponte Presidente Dutra, sexta-feira, justamente no dia em que me encontrava descoberto dos meus poderes mágicos, sem a proteção do amuleto de Xangô.

Consultei os búzios sobre o sinistro em que eu poderia fechar os olhos para a eternidade, cufar (morrer) e chorar no “Afá” (Universo), então me responderam que eu descuidara, por não ter fechado o corpo suficiente para tocar na referida Ponte. Essa, como se sabe, estava carregada de “encardidos”, devido ao excesso de pragas rogadas pelos motoristas que por ela trafegam.

Implorei a Oxalá (Orixá Supremo) para afastar os espíritos malignos e abrir os caminhos para todos, pois o povo não é culpado da incúria governamental. Oxalá atendeu-me na súplica e tudo agora se encontra “Odara” (Legal e Caminhos Abertos).

Depois de ter sido salvo do “artefato demoníaco” e antes da jogada dos búzios, acendi três velas para Oxalá por ser seu dia votivo (Sexta-Feira). A lição despertou-me e jamais esquecerei o preceituário, sempre tomando banho de cheiro, bem como despachar a rua, ao sair de casa, jogando água em três direções: Agô...! Agô...! Agô...! (Licença!). Quem assim o faz, livra-se dos Exus e da “Mulher da Trouxa”, (Diaba)  que vagam pelas ruas, encruzilhadas, estradas e, principalmente, cabeceiras de pontes! 

Geraldo Dias de Andrade é Cel. PM/RR – Bel. em Direito – Membro da Academia Juazeirense de Letras – Escritor – Cronista – Membro da ABI/Seccional Norte

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